Malala Yousafzai 

Você conhece a Malala?

Em 2012, a paquistanesa Malala Yousafzai foi baleada na cabeça pelo Talibã, sobreviveu e se tornou  um símbolo da luta pela defesa das mulheres à educação. 

Malala começou a ganhar notoriedade e ser perseguida em seu país pelo grupo fundamentalista quando tinha entre 11 e 12 anos, por escrever um blog para a emissora britânica “BBC” sobre seu cotidiano na cidade em que morava.

No dia 9 de outubro de 2012, na época com 15 anos, a jovem voltava para casa em um ônibus escolar quando um homem disparou três tiros contra ela, um deles atingindo sua cabeça. Malala chegou a ficar em estado crítico, mas conseguiu se salvar e desde então é uma ativista pelos direitos das mulheres.

Em 2014, aos 17 anos, Malala, que hoje vive no Reino Unido, venceu o Prêmio Nobel da Paz por causa de sua “luta contra a supressão das crianças e jovens e pelo direito de todos à educação” e se tornou a pessoa mais nova a receber a honraria.

Matéria sobre o acidente de Malala

Oslo / Dubai – 10 OCT 2014 – 09:57 BRT

A paquistanesa Malala Yousafzai, jovem baleada na cabeça por militantes do Talibã em 2012 por defender a escolarização das mulheres, e o ativista indiano Kailash Satyarthi foram agraciados com o prêmio Nobel da Paz de 2014 “por sua luta contra a opressão de crianças e jovens e pelo direito a todas as crianças à educação”, segundo anunciou o Comitê Nobel norueguês, nesta sexta-feira.

“Crianças devem ir à escola e não ser explorados financeiramente”, defendeu o Comitê, destacando que “nos países pobres, cerca de 60% da atual população tem menos de 25 anos”. Ao realizar o anúncio, Thorbjon Jagland, presidente do Comitê Nobel norueguês, afirmou que foi considerado “um ponto importante o fato de um hindu e uma muçulmana – um indiano e uma paquistanesa – se unirem na luta comum pela educação e contra o extremismo”. A comissão ressaltou ainda que, graças à luta de outras pessoas e instituições, hoje há menos 78 milhões de crianças trabalhando no mundo do que em 2000, apesar de 168 milhões ainda o fazerem. Em seguida, o Comitê Nobel norueguês insistiu que “a luta contra a opressão e pelos direitos de crianças e adolescentes contribui para a realização da ‘fraternidade entre nações’ que Alfred Nobel menciona em seu testamento como um dos critérios para o Nobel da Paz”.

O Comitê destacou que Satyarthi, “mostrando grande valor pessoal” e seguindo a tradição de Gandhi, “liderou várias formas de protesto e manifestação, todas pacíficas, concentrando-se na grave exploração de crianças para obtenção de benefícios financeiros”. O ativista também “contribuiu para o desenvolvimento de importantes convenções internacionais sobre os direitos da criança”. Kailash Satyarthi, engenheiro informático indiano que abandonou os computadores há 28 anos para denunciar multinacionais que exploram crianças de 5 a 12 anos em seu país, encabeça a organização Global March, que libertou da escravidão empresarial cerca de 80.000 crianças em mais de 160 países.

Já Malala, “apesar da pouca idade”, vem lutando há anos “pelo direito das meninas à educação e mostrou com seu exemplo que crianças e jovens também podem contribuir para melhorar suas próprias situações”. O Comitê Nobel ressaltou ainda que “ela o fez sob as circunstâncias mais perigosas”. “Mediante sua luta heroica, ela se tornou uma destacada porta-voz dos direitos das meninas à educação”, acrescentou o júri.

Malala, que acaba de fazer 17 anos, ficou famosa quando o Exército paquistanês expulsou o Talibã do Vale do Swat, em 2009. Foi quando se descobriu que ela era a autora de um diário no qual contava como era a vida sob o controle dos extremistas e que era publicado no site da BBC Urdu. Desde seus 11 anos, sob o pseudônimo de Gul Makai, Malala vinha relatando com bastante franqueza como as restrições iam aumentando até todas as escolas para meninas serem finalmente fechadas.

“O Talibã emitiu uma lei que proíbe todas as meninas de ir à escola”, escreveu ela, em uma das postagens no site. “[Hoje] só 11 das 27 alunas assistiram à aula. (…) Três amigas minhas foram embora para Peshawar, Lahore e Rawalpindi com suas famílias depois da lei”. A angústia das meninas se revela quando ela relata que uma colega lhe perguntou: “Pelo amor de Deus, diga a verdade, os talibãs vão atacar nossa escola?”.

Não era um medo irracional. Um relatório publicado pelo Exército na época afirmava que os militantes tinham decapitado 13 crianças, destruído 170 escolas e colocado bombas em outras cinco. Quando os militares puseram fim à tirania dos talibãs em Swat, Malala utilizou sua fama repentina para promover o direito à educação, com ênfase especial às meninas. Seu ativismo, dando palestras em escolas de todo o país, foi reconhecido pelo Governo, mas não caiu bem entre os extremistas, que, após tê-la ameaçado em várias ocasiões, tentaram assassiná-la em 9 de outubro de 2012.

Nem essa experiência traumática afastou Malala de seu objetivo. Foi acolhida no Reino Unido com sua família e, uma vez recuperada, continuou promovendo o direito à educação das meninas. Há poucas semanas lançou internacionalmente uma versão infantil de seu livro Eu Sou Malala (Companhia das Letras, 2013). Sua atitude lhe rendeu reconhecimento internacional. No ano passado, recebeu o prêmio Sajarov da União Europeia e foi nomeada para o Nobel da Paz. Também foi convidada a fazer um discurso diante da Assembleia Geral da ONU, que declarou o dia de seu aniversário, 12 de junho, como o Dia de Malala.

Apesar disso, Malala não incomoda só ao Talibã, com sua visão estreita e seu temor de que a educação afaste as pessoas de seus postulados. As escolas particulares do Paquistão proibiram seu livro. Os responsáveis pela decisão argumentaram que ela não é suficientemente respeitosa com o Islã, porque quando menciona o nome do profeta Maomé não acrescenta a seguir a expressão “que a paz esteja com Ele”, como é comum entre os muçulmanos piedosos. Um mero pretexto que esconde do temor à represálias dos extremistas a simples ciúme, passando pela ausência de uma verdadeira vontade política para mudar um país paralisado pela pobreza e pela degeneração social.

O Nobel da Paz é o único que se outorga e se entrega fora de Estocolmo por decisão do criador dos prêmios, o magnata sueco Alfred Nobel, já que na época a Noruega fazia parte do Reino da Suécia. No ano passado, 259 personalidades e instituições foram nomeados para o prêmio, que acabou sendo dado à Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPCW, na sigla em inglês), por seus esforços para eliminar esse tipo de arsenal.

A edição deste ano recebeu um número recorde de candidatos, 278, mas a lista de indicações enviadas por professores universitários de Direito e Ciências Políticas, parlamentares e antigos premiados de todo o mundo só será tornada pública dentro de 50 anos. Sabe-se que entre os nomeados estão, por exemplo, as Mães da Praça de Maio, da Argentina. Entre os favoritos nas casas de apostas estavam o papa Francisco, o médico congolês Denis Mukwege e o ex-analista da CIA Edward Snowden, segundo a agência EFE.

https://brasil.elpais.com/brasil/2014/10/10/internacional/1412931102_118892.html

Diário de uma estudante paquistanesa
Escolas particulares no conturbado distrito de Swat, no noroeste do Paquistão, foram condenadas a fechar em um decreto do Taleban que proíbe a educação de meninas. Militantes que buscam impor sua interpretação austera da lei Sharia destruíram cerca de 150 escolas no ano passado. Mais cinco foram explodidos apesar de uma promessa do governo de salvaguardar a educação, foi relatado na segunda-feira. Aqui, uma estudante da sétima série do Swat narra como a proibição afetou ela e seus colegas de classe. O diário apareceu pela primeira vez na BBC Urdu online.

QUINTA-FEIRA, 15 DE JANEIRO: NOITE REPLETA DE FOGO DE ARTILHARIA
Escola em Swat supostamente destruída pelo Talibã
A noite estava cheia de barulho de fogo de artilharia e acordei três vezes. Mas, como não havia escola, levantei-me mais tarde, às 10 horas. Depois, meu amigo veio e discutimos nosso dever de casa.Os talibãs atacaram repetidamente escolas no Swat.
Hoje é 15 de janeiro, o último dia antes do decreto do Taleban entrar em vigor, e meu amigo estava discutindo sobre o dever de casa como se nada fora do comum tivesse acontecido.
Hoje, também li o diário escrito para a BBC (em urdu) e publicado no jornal. Minha mãe gostou do meu pseudônimo ‘Gul Makai’ e disse ao meu pai ‘por que não mudar o nome dela para Gul Makai?’ Eu também gosto do nome porque meu nome verdadeiro significa ‘aflito’.
Meu pai disse que alguns dias atrás alguém trouxe a impressão deste diário dizendo como era maravilhoso. Meu pai disse que sorriu, mas não podia nem dizer que foi escrito por sua filha.

QUARTA-FEIRA, 14 DE JANEIRO: POSSO NÃO IR À ESCOLA NOVAMENTE
Mapa mostrando o vale do Swat
Eu estava de mau humor enquanto ia para a escola porque as férias de inverno começam a partir de amanhã. O diretor anunciou as férias, mas não mencionou a data de reabertura da escola. Esta foi a primeira vez que isso aconteceu. No passado, a data de reabertura era sempre anunciada de forma clara. O diretor não nos informou sobre o motivo de não anunciar a reabertura da escola, mas meu palpite era que o Talibã havia anunciado a proibição da educação de meninas a partir de 15 de janeiro.
Desta vez, as meninas não estavam muito empolgadas com as férias porque sabiam que se o Talibã implementasse seu decreto, elas não poderiam voltar à escola. Algumas meninas estavam otimistas de que as escolas reabririam em fevereiro, mas outras disseram que seus pais decidiram mudar de Swat e ir para outras cidades por causa de sua educação. Como hoje era o último dia de nossa escola, decidimos brincar um pouco mais no parquinho. Sou da opinião de que a escola um dia reabrirá, mas ao sair olhei para o prédio como se não voltasse aqui novamente.

SEXTA-FEIRA, 9 DE JANEIRO: A MAULANA VAI DE LICENÇA?
Hoje na escola contei aos meus amigos sobre a minha viagem a Bunair. Eles disseram que estavam cansados ​​de ouvir a história de Bunair. Discutimos os rumores sobre a morte de Maulana Shah Dauran, que costumava fazer discursos na rádio FM. Foi ele quem anunciou a proibição de meninas frequentarem a escola.
Algumas garotas disseram que ele estava morto, mas outras discordaram. Os rumores de sua morte estão circulando porque ele não fez um discurso na noite anterior na rádio FM. Uma garota disse que ele estava de licença.
Como não havia aula na sexta-feira, joguei a tarde inteira. Liguei a TV à noite e ouvi sobre as explosões em Lahore. Eu disse a mim mesmo ‘por que essas explosões continuam acontecendo no Paquistão?’

QUARTA-FEIRA, 7 DE JANEIRO: SEM DEMISSÃO OU MEDO
Eu vim para Bunair para passar o Muharram (um feriado muçulmano) de férias. Eu adoro Bunair por causa de suas montanhas e campos verdejantes. Meu Swat também é muito bonito, mas não há paz. Mas em Bunair há paz e tranquilidade. Nem há qualquer disparo nem qualquer medo. Todos nós estamos muito felizes.
Hoje fomos ao mausoléu de Pir Baba e tinha muita gente lá. As pessoas estão aqui para orar enquanto estamos aqui para uma excursão. Há lojas que vendem pulseiras, brincos, medalhões e outras joias artificiais. Pensei em comprar alguma coisa, mas nada me impressionou – minha mãe comprou brincos e pulseiras.
Soldado com supostos militantes no Swat
SEGUNDA-FEIRA, 5 DE JANEIRO: NÃO USE VESTIDOS COLORIDOS
Eu estava me preparando para a escola e prestes a usar meu uniforme quando me lembrei que nosso diretor nos disse para não usarmos uniformes – e irmos para a escola vestindo roupas normais. Então decidi usar meu vestido rosa favorito. Outras meninas da escola também usavam vestidos coloridos e a escola apresentava um visual caseiro.
Swat tem sido um centro de atividade militante.
Meu amigo veio até mim e disse: ‘pelo amor de Deus, me responda honestamente, nossa escola vai ser atacada pelo Talibã?’ Durante a assembleia da manhã, nos disseram para não usarmos roupas coloridas, pois o Talibã se oporia a isso.
Voltei da escola e tive aulas depois do almoço. À noite, liguei a TV e ouvi que o toque de recolher de Shakardra havia sido suspenso após 15 dias. Fiquei feliz em ouvir isso porque nossa professora de inglês morava na área e ela pode estar vindo para a escola agora.

DOMINGO 4 DE JANEIRO: TENHO QUE IR À ESCOLA
Hoje é feriado e acordei tarde, por volta das 10h. Ouvi meu pai falando sobre outros três corpos deitados em Green Chowk (cruzamento). Eu me senti mal ao ouvir essa notícia. Antes do início da operação militar, todos íamos a Marghazar, Fiza Ghat e Kanju para piqueniques aos domingos. Mas agora a situação é tal que não saímos para um piquenique há mais de um ano e meio.
Também costumávamos dar um passeio depois do jantar, mas agora estamos de volta em casa antes do pôr do sol. Hoje fiz algumas tarefas domésticas, minha lição de casa e brinquei com meu irmão. Mas meu coração estava batendo rápido – porque eu tenho que ir para a escola amanhã.

SÁBADO, 3 DE JANEIRO: ESTOU COM MEDO
Ontem tive um sonho terrível com helicópteros militares e o Talibã. Tenho tido esses sonhos desde o lançamento da operação militar no Swat. Minha mãe me preparou o café da manhã e eu fui para a escola. Eu estava com medo de ir à escola porque o Taleban emitiu um decreto proibindo todas as meninas de frequentar as escolas.
Apenas 11 alunos participaram da aula de 27. O número diminuiu por causa do decreto do Taleban. Meus três amigos se mudaram para Peshawar, Lahore e Rawalpindi com suas famílias após este decreto.
No caminho da escola para casa, ouvi um homem dizendo ‘vou matar você’. Apressei o passo e depois de um tempo olhei para trás se o homem ainda vinha atrás de mim. Mas, para meu grande alívio, ele estava falando no celular e devia estar ameaçando outra pessoa pelo telefone.
https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/10/141010_diario_malala_rb

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