O QUE HÁ DE MAIS ASSUSTADOR NO FOLCLORE BRASILEIRO

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Por Andriolli Costa

Escondidos num banheiro abandonado da escola, os garotos aceitam o desafio: apertar as descargas, ligar as torneiras e chamar pelo nome proibido – tudo ritualmente repetido por três vezes. No espelho, um vulto se anuncia. É o fim.

Longe dali, uma adolescente que ficou na rua até tarde sente uma presença a acompanhando. Nas sombras, um velho maltrapilho se insinua, carregando nas mãos um grande saco de estopa. Ele ri.

O final de cada uma dessas histórias não está na tela, mas em seu íntimo você bem sabe o que aconteceu. Assim é Imaginário, uma web-série carioca que estreou no dia 31 de outubro deste ano no Youtube. Desde então, um novo episódio é lançado toda quinta-feira, até que os 10 desta primeira temporada tenham sido publicados. O mais recente, O Garoto de uma perna, é o sexto.

O projeto foi criada pelo diretor Bruno Esposti, de 24 anos. A idade é um componente importante neste contexto: toda a equipe é bastante jovem, alguns assumindo cargos de direção pela primeira vez. O resultado, no entanto, denota um apuro estético muitas vezes inalcançado por produções do gênero que investem nas narrativas folclóricas.

A diferença, no caso de Imaginário, é que os filmes em sua maioria fogem do gore ou do trash para investir num terror psicológico que captura pela tensão. Entre ataques de chupa-cabra, perseguições do saci e ovos fecundados pelo diabo em plena quaresma, cada um dos curtas possui em média apenas 3 minutos de duração. Nenhum dos curtas tem exatamente um final, uma escolha proposital do diretor: “metade da história eu te mostro, a outra metade cabe a você e ao seu imaginário”, esclarece em um dos vídeos de produção.

Imaginário contou até mesmo com uma psicóloga para desenvolver as narrativas. Mariana Castro se envolveu com o projeto principalmente pela perspectiva do espelho. Os mitos como reflexo de Eu. De nossos medos , nossas ansiedades e nossa relação com o inteiramente outro.

Confira abaixo cada um dos episódios, acompanhado de uma breve resenha feita por nós.

Episódio 1 – Diabinho na Garrafa

Um episódio que estreou em 31 de outubro não poderia tratar de uma temática melhor: bruxaria. A lenda conta que o dono de um diabinho na garrafa receberá dele todos os seus desejos. Vera tenta controlar a criatura, fecundada pelo próprio diabo. A maldade, no entanto, é incontrolável e vai cobrar seu preço. Gosto especialmente deste episódio pela relação com a quaresma, o período mais sombrio do folclore brasileiro. Denota pesquisa e atenção com o texto fonte.

Episódio 2 – A Mulher do Espelho

O grande problema deste episódio para mim foi a escolha do monstro. Loira do banheiro, Mulher do algodão, Mulher de branco… todas estas são variantes existentes no folclore brasileiro, mas “Maria Sangrenta” para mim faz referência direta à Bloody Mary americana. De qualquer forma, o ritual das descargas é um clássico. A cenografia do banheiro da escola é extremamente impressionante.

Episódio 3 – Cabrita

Cabrita é a caminhonete de Matheus. Um detalhe simples, um trocadilho evidente com a besta da semana – o terrível chupa-cabras. Ainda assim trouxe um colorido muito especial ao personagem: dizendo em poucos segundos sobre sua cultura agroboy, sua juventude e espirituosidade. Um desafio em filmes com pouco mais de 3 minutos. Este é também o episódio mais gore da série, onde a equipe de maquiagem mais investiu em sangue falso.

Episódio 4 – O Sopro

Este não é meu curta preferido da série, mas seu argumento certamente é o mais inovador. Nunca antes eu havia visto esta relação entre Folia de Reis e o horror infantil. Só quem já viu um reizado sabe o quanto a figura dos palhaços (ou bastiões) – com suas máscaras de couro – pode ser impactante. No folguedo, a tarefa deles é proteger o menino Jesus dos soldados de Herodes, distraindo a todos com suas danças e cantorias. Para Sophia, no entanto, eles eram monstros. Terríveis monstros que tentavam entrar em sua casa. Só não entendi por que “O Sopro”.

(Nota: O diretor me explicou depois que o título se deve a uma cena que foi cortada, quando o palhaço assopraria um instrumento no rosto da menina)

Episódio 5 – O Velho do Saco

O interessante deste episódio é que normalmente vemos a história do velho do saco sempre relacionada a crianças. Alice, protagonista do curta, já é adolescente mas ainda assim é perseguida por ele o que faz este pavor do outro ganhar tons ainda mais sexualizados. Um episódio bastante concreto que lida com medos cada vez mais presentes no ambiente urbano. Um detalhe observado pelo amigo Romeu Martins é que os meninos que conversam com Alice são Caio e Mateus, do curta da Loira do Banheiro. Sophia, mencionada pela mãe, pode ser a protagonista de O Sopro.

Episódio 6 – Garoto de uma perna

Um casal de nômades tenta escapar de algo que os persegue pela mata. É o saci, que neste versão era filho de escrava feiticeira, carregando magia no sangue. Após ser preso e mutilado pelo seu “senhor”, foge para mata onde até hoje persegue quem cruza seu caminho.

Demorei a entender um pouco a escolha dos nômades como protagonistas – achei, de início, que era algum tipo de branqueamento de etnias indígenas. Fiquei feliz em descobrir que não. Ainda assim, me parece uma escolha muito distante dos demais curtas, tão calcados nas imagens de Brasil. No geral, o filme me deu a impressão de ser uma dark fantasy  universal – algo diferente ao abordar um mito tão nacional quanto o saci.

Episódio 7 – Curupira

Uma história simples. Caçadores na mata são perseguidos pelo terrível Curupira. É o episódio mais fraco para mim até agora. Os pés invertidos do Curupira convencem no plano aberto, mas no detalhe parece apenas uma pessoa andando para trás. Valia investir mais nisso. E um detalhe bobo, mas que vale pontuar: “malditos espinhos” como linha de roteiro, parece homenagem à dublagem dos anos oitenta. Em diálogos tão breves, faltou algo mais marcante.

Episódio 8 – Boto

Se o Boto cor-de-rosa normalmente é retratado como um caboclo sedutor ainda preso as anos 60, com sua roupa de malandro e inseparável chapéu coco, a versão de Imaginário não podia ser mais diferente. O Boto aqui é grave, silencioso, sua presença impõe força e respeito. Quando aparece, não precisa de muito para arrastar a cunhã para a lagoa. O resultado deste encontro será muito mais trágico do que a gravidez indesejada registrada nas lendas. Ótimo episódio.

Episódio 9 – Equino

Esperei ansioso por este episódio. A Mula Sem Cabeça, para mim, é o mito mais difícil de ser retrabalhado nos dias de hoje. A carga misógina dele, como forma de controle do feminino, é tão forte que o seu simples relato pode produzir uma narrativa leviana e anacrônica. Queria muito saber qual a escolha de abordagem Imaginário seguiria.

Fiquei triste ao ver que a série escapou desses dilemas. A incerteza sobre a mula é apenas se ela é ou não fruto dos delírios de uma mulher supostamente esquizofrênica. É o conflito entre real e fantasioso que permeia todos os mitos. Para mim faltou ousadia neste roteiro.

Episódio 10 – Sereia

O episódio que veio para encerrar a temporada, e a fecha muito bem! Repleto de referências aos demais episódios, o curta começa com os cartazes de procurados de cada um dos mitos retratados na série. O caçador aceita a missão, mas será que ele é capaz de resistir aos encantos da Iara e cumprir sua tarefa?

Detalhe para a beleza da caracterização da criatura. A iara, negra, tem pintada no torso a árvore do Imaginário. A maquiagem de escamas no braço, as unhas compridas e o azul da fotografia constroem esse belo design de monstro que é coroado com a transformação final. Parabéns a toda a equipe!

Fonte 🙂

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Dostoievski – Crime e Castigo

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Nesta animação, poeticamente escura, o cineasta polonês  Piotr Dumala oferece uma interpretação altamente pessoal do romance clássico de Fiodor Dostoievski – Crime e Punição. “Meu filme é como um sonho”, disse Dumala em 2007. “É como se alguém tivesse lido Crime e Punição e depois tivesse um sonho sobre isso”.

A versão de Dumala ocorre somente à noite. A história é contada expressivamente, sem diálogo e com um fluxo alterado de tempo. O romance complexo e multi-camadas é reduzido a alguns personagens e eventos centrais:

“Na cidade russa de São Petersburgo, um jovem chamado Raskolnikov encontra-se em seu quarto escuro meditando sobre um crime sangrento.

Ele assassinara uma mulher idosa com quem ele tinha penhorado seu relógio. Quando a irmã mais nova chega em casa inesperadamente, ele a mata também. Ele confessa o crime à uma jovem chamada Sonya. O sinistro espião Svidrigailov sabe do amor de Raskolnikov por Sonya e dos seus pecados. No final Svidrigailov pega uma pistola e “vai para a América” se matar.

Dumala demorou três anos de trabalho. Seu método: É uma forma de “animação destrutiva”. Cada imagem existe apenas o tempo suficiente para ser fotografada e pintada para criar um senso de movimento. É um processo que às vezes faz Dumala triste. “Acho que às vezes, quando faço um desenho no meu filme, quero mantê-lo”, disse ele a Melissa Chimovitz da  Animation World Network  em 1997, “mas devo destruí-lo porque essa é a técnica que uso. Eu devo destruir cada quadro para colocar em seu lugar outro, o próximo, para ter movimento. Dessa forma, às vezes eu acho que é muito sofrimento, destruir o tempo todo o que estou fazendo. ”

fonte.

 

o bem e o mal

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Quem é mais curioso: o homem ou a mulher? O curta de animação ‘A Ciência do Bem e do Mal’ traz uma narrativa que inverte a história da Bíblia: o mundo foi criação do Diabo e Deus apenas consertou suas falhas. Assim, Adão e Eva nasceram do Tinhoso, mas o toque divino lhes deu alma e levou-os ao Paraíso. Inconformado, o Diabo convoca a serpente a tentar Adão e Eva com o fruto proibido, aquele que revelaria o próprio segredo da vida. O final surpreendente deixa a plateia incrédula e mostra a ironia marcante na obra de Machado, nesta adaptação do conto ‘Adão e Eva’.

Então? É Ciência ou Não?

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Filosofia em Pedacinhos: Então? É Ciência ou Não?

Animação em francês com legendas em português sobre filosofia da ciência produzida pela Universidade de Nancy, juntamente com os Archives Henri Poincaré, para o 14º Congresso Internacional de Lógica, Metodologia e Filosofia das Ciências.

Criados por Philippe Thomine e com animação realizada por Nicolas Mathis, a série de vídeos intitulada “A filosofia em pedacinhos” (La philo en petits morceaux), abordam, em linguagem simples, vários temas de filosofia da ciência e de epistemologia — como mudanças de paradigma, os paradoxos em lógica e em teoria de conjuntos, a filosofia da mente, os problemas da causalidade, etc. Os 6 vídeos originais podem ser assistidos no site do projeto – é possível ativar as legendas ocultas e traduzir pelo recurso do youtube.

Saiba mais aqui.

e a velha a fiar…

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Obra do cineasta Humberto Mauro, a velha a fiar (1964) ilustra a cançao popular de mesmo nome, executada pelo Trio Irakitã. O filme é considerado o primeiro videoclipe brasileiro, e um dos primeiros do mundo.

Vídeo produzido a partir do livro A Velha a fiar, adaptação de Sandra Regina Félix e ilustrações de Jefferson Galdino.(áudio-livro)

prévia do rolezinho

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Em agosto de 2000 um grupo de manifestantes organizou uma ocupação em um grande shopping da zona sul carioca. O episódio obteve grande repercussão na imprensa nacional e ainda hoje é discutido por alguns teóricos

O documentário nos mostra um grupo de manifestantes sem terra, que visitaram o Shopping Center Rio Sul, em Botafogo, no Rio de Janeiro, em 2000. Apesar da manifestação pacífica, não foram bem recebidos, bem vistos. O objetivo dos manifestantes era mostrar que eles têm direitos ao andar, visitar locais públicos. No início, foram abordados pela polícia, mas nada adiantou, pois a impressa estava presente.

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Assaltaram a Gramática

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Trecho do curta “Assaltaram a Gramática” de Ana Maria Magalhães, Chacal, Francisco Alvim, Paulo Leminski, Waly Salomão.

Sinopse: Antecipando a linguagem do videoclipe, o documentário traça o perfil dos poetas Francisco Alvim, Paulo Leminski, Waly Salomão e Chacal por meio de poemas e textos expressivos, apresentando-os de forma ficcional e performática. O filme também homenageia a poeta Ana Cristina Cesar e tem como música original “Assaltaram a gramática”, de Lulu Santos e Waly Salomão, gravada especialmente para o filme.

Duração: 13 min Ano: 1984

Assista na Integra aqui (link externo Porta Curtas!)

Vento

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Dizem que na vida a gente se acostuma com tudo. Com o bom e com o ruim. A mente humana é capaz de adaptar-se às mais variadas situações, acostumando-se com uma realidade e sua rotina.

Mas vez ou outra, algo ou alguém pode aparecer e mudar as regras do jogo. O curta “Wind“, do alemão Robert Löbel, fala sobre isso de forma lúdica e sensível.

Sem diálogos, a animação em 2D de traços limpos se passa em um mundo onde o vento é forte e incessante, mas que ninguém sabe e nem se pergunta de onde vem. Assim, sem nem perceberem, as pessoas pautam suas atividades sob tal condição ambiental.

Exibido no Anima Mundi 2013, o curta conta com mais de 18 prêmios no currículo e foi o projeto de graduação de Löbel, que trabalha como designer e ilustrador em Berlim atualmente.

Mute

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curta de animação sobre um mundo povoado por pessoas que nasceram sem uma boca. Quando um acidente sangrento leva à descoberta eles são capazes de criar a sua própria boca, cortando-se, este libera uma reação em cadeia entusiasmado entre a população …