Curso livre de humanidades

A paixão pelo conhecimento

Por Renato Janine Ribeiro – Prof. Ética e Filosofia (USP).

Découpage de Daniel Moraes Carlos – Prof. Filosofia (SEME).

 

Esta aula fala da diferença filosófica, de como é que, na busca de sabedoria, teorias opostas valem ao mesmo tempo e valores absolutos se enfraquecem, quando se discute o Bem, a Verdade e a Beleza num conhecimento qualificado.

 

Esclarecimentos sobre a relação entre Filosofia e Ciências.

Essas duas áreas do conhecimento possuem muitas coisas em comum: como o fato de possuírem um pensamento racional, após um período histórico, a razão fica relacionada ao calculo lógico, a filosofia critica a razão como calculo. Heidegger diz: pensar é mais do que a razão!

Elas possuem muitas divergências: em primeiro lugar as ciências surgem da Filosofia. No inicio do pensamento humano surgem a geometria e matemática e depois na idade média com os físicos, os sociólogos…

As ciências pertencem as exatas. Uma característica importante da ciência é que ela não busca provar a verdade. Todo seu discurso pode ser refutado em determinado instante. Por isso o pensamento cientifico trabalha sempre online, só se utiliza dos últimos resultado das pesquisas, mesmo que conflitantes entre si (não há prova que está errado). Seu foco de importância é sempre no ultimo resultado. Esses discursos são sustentados por uma quantidade gigantesca de periódicos científicos.

A Filosofia é estável, clássica, humana. É por ela que surgem todas as ciências. Pertence às humanidades. Muda de definição conforme o tempo, mas mantém um corpo estável de pensamentos há décadas. Em filosofia não tem cabimento aderir a ultima moda. Para a filosofia não existe novidade (o online) que a ciência busca, o que lhes interessa são os clássicos. Um panteão de pensadores que se inicia a 2500 anos atrás e continua válido.

É na Filosofia que se refugia os cânones da razão (pensamento) humana.

Uma grande diferença entre a Filosofia e as ciências é a noção de verdade de ambas, no pensamento filosófico não existe a possibilidade de refutação. O pensamento humano é algo irredutível. É essa a grande diferença entre humanidades e ciências. A filosofia deixa espaços de discussão, um bom exemplo desses espaços são os diálogos socráticos = pelo diálogo algo pode acontecer! O diálogo permite uma igualdade de razões. Onde até o mais subalterno escravo é capaz de dialogar, e pode chegar (direcionado por perguntas) a descobrir importantes resultados da geometria.

Existe no diálogo certa igualdade. O diálogo se estabelece entre os interlocutores pois existe um reconhecimento da importância recíproca. Isso é importante pois quando aceitamos dialogar com alguém, o aceitamos alguém como interlocutor, estamos dando a esse interlocutor uma prova de respeito. Independente das manipulações e intenções da linguagem para se comunicar o que importa é o se interessar por se comunicar. No diálogo socrático é mais importante a forma do que o conteúdo. No diálogo a desigualdade é secundária. O que importa é a participação de todos na construção de algo universal, em algo que tem a ver com a razão.

A Filosofia se aproxima das letras e das artes e se distancia das ciências por mais um motivo. Para a ciência a história não conta tanto. A história da física não faz parte da física. O mesmo não vale para as artes, por mais importante que seja o fazer atual das artes e da literatura, se não conhecermos bem a história da arte e da literatura estaremos desvalidos, o mesmo vale para Filosofia. É nesse sentido que Aristóteles, Platão, Maquiavel, ainda estão vivos para serem utilizados de maneira importante na atualidade. Para essas não existe refutação, um discurso não se sobrepõe ao outro, mesmo que na critica, vai ser sempre o olhar desse sobre o pensamento do outro. Permite diferentes pontos de vista. Kant – século XVIII. Chegou a conclusão que para certas questões a solução racional simplesmente não se aplica. Passamos por certos impasses (que ele chamou de ‘aporia’) onde eu posso afirmar uma coisa e também afirmar o contrário. E não tem como reduzir isso à razão.

Certas questões não podem ser decididas racionalmente. É em ultimo caso um ato de vontade. As escolhas da nossa vida, por mais conhecimento e razão que possuímos são sempre nossas. “que tipo de vida eu quero levar?…” em ultima análise é uma escolha. E essa escolha não pode ser decretada racionalmente.

Como consequência de que a razão não se aplica a todos os casos, a ideia de uma razão universal é muito complicada e muito difícil.

Aqui é importante colocar mais uma característica fundamental da área que atua a Filosofia, que é a sua relação com o senso comum. A própria palavra senso comum tem dois sentidos diferentes:

No francês o senso comum é ‘sens commun’. É o lugar do erro. O termo se contrapõe ao bom senso. Tem um sentido teórico, reflexivo. É o que uma pessoa não especializada acha, tem uma conotação ruim. É a expressão de uma teoria que se ignora.

Para o inglês, o senso comum é ‘common sense’. Se torna um termo nobre, sua tradução não fica longe do que conhecemos como bom senso. O common sense é um equilíbrio que indica que a sociedade pensa mais ou menos da mesma forma. É um consenso comunitário. É uma prática inteligente pois indica senso de comunidade.

Existe uma divergência de discursos. Qual é o melhor?

Exemplo de como essa divergência de tradução pode ser vista: Numa palestra com o físico americano Allan Sokal  surge uma pergunto sobre qual era a melhor forma da Terra, se é a forma redonda ou se estamos num disco sustentado em cima de uma tartaruga. A resposta dada foi que os discursos não falam da mesma coisa. As pessoas que acreditam num disco tem pretensões que a sua crença aceita e confirma. Suas intervenções são praticas mágicas que seguramente são funcionais. Não rivaliza com a intervenção moderna, onde precisamos desmistificar a Terra para agirmos. Se introduzir ao indígena a ideia da Terra redonda e calculada você inviabiliza a magia dele.

Então: é muito difícil definir qual discurso é superior ao outro mesmo que sempre alimentamos uma tendência grande para se construir universais.

Depois do século XX parou de se pensar que os valores estavam no meio do processo evolutivo (que as verdades eram universais) e começou a se pensar que eles estão no ponto de partida (construção de regras universais).

Antes do século XX acreditava-se que a razão era algo universal, potencialmente todos receberam a razão. Porém alguns são desprovidos de razão por serem loucos, ou crianças, por ser servo, ou mulheres, por falta de alimentação, por falta de educação. Aqui se estabelece quem tem razão e quem não tem, essa universalização da razão permite definir até quais culturas tem ou não razão. Os sociólogos desse tempo definiam essas pessoas desprovidas de razão de ‘mentalidade primitiva’ (nem alcançavam o patamar de pensamento), posteriormente, Lévi-Strauss e Levy- Bruhl, já definem como ‘pensamento selvagem’. Esse tipo de pensamento: que diz que a mulher tende a histeria, que os negros não foram feitos para pensar, esse pensamento que se estrutura como universal na verdade é praticado por poucos (os brancos adultos do sexo masculino). É o principio de etnocentrismo = determinados valores são delegados a todo mundo.

A pergunta continua: Como construir valores que sejam universais? Uma verdade eles já tinham: os valores não podiam estar postos, tinham que ser construídos.

Jürgen Habermas propõe que as construções desses valores universais sejam feito pelo diálogo.

Pós século XX o universal é algo que fazemos e tem como horizonte a manutenção do Direitos Humanos. Pois ou os direitos humanos de alguma forma serão universais ou não serão direitos humanos. Como ter ações que valham para todo mundo? O ponto chave da existência de um universal atualmente é não pauta-lo no conhecimento, e sim na ação.

Como estabelecer que a igualdade dos sexos não é um valor ocidental tardio, mas que deveria valer também no mundo islâmico? Os EUA passam por um dilema ao redigir a constituição de países árabes com vista aos direitos humanos. Como construir valores universais?

O universal não é algo que apreendemos, é algo que fazemos. É um valor.

((não é possível existir um universal pautado pela razão))

Freud e Lacan diz que o mal-entendido nas relações humanas é insuperável e por tanto impossível se chegar a um consenso. Não há como dizer algo se o outro não estiver propenso a aceitar a verdade e isso é constitutivo da comunicação humana. O erro é inerente. A razão falha.

O problema está na ação. Na medida que agimos vamos construindo universais. Um dos motivos é o enfraquecimento que os valores dos universais ao longo dos séculos. Especialmente esses três: a verdade, o bem e a beleza.

Tentativa de entender esses valores:

O que é a verdade?

O que é o bem? Qual a ação correta? Qual a ação boa?

Hobbes é considerado ateu por não acreditar no inferno. Para Hobbes não existe livre arbítrio. Não há culpado. Nessa época o bem condizia com o bem da religião (antes do século XVIII). Objetivo é enunciar uma que seja independente da revelação divina. Kant dá um corte radical nessa discussão ao enunciar uma regra bem simples: cada ato que pratico estou proclamando a universalidade desses ato, logo, se eu passo no sinal vermelho estou aceitando que todos podem passar no sinal vermelho, meu risco de morte se eleva ao ponto de racionalmente eu não passar no sinal vermelho. Assim não preciso de lei ditadas pelo Estado ou reveladas por Deus.

Essa universalidade da regra vale como momento histórico onde conseguimos construir uma ética humana sem a intervenção divina.

O que é a Beleza? Esse conceito mudou muito no decorrer dos séculos. Teoria estética lida com a arte e não com a beleza. Mesmo a beleza clássica não dá conta da arte do século XX.

Essa mudança, esse desmascarar se dá por conta de três grandes pensadores da virada do século que puseram o pensamento em xeque: Nietzsche, Marx e Freud.

Marx diz que muita da nossa ação livre tem por base um interesse de classe. Analisa no livro ‘18 Brumário’ como cada grupo social age ou deixa de agir na França pós golpe do Napoleão III. Georg Lukács no seu livro “A consciência de classes” diz que as classes fortes no capitalismo são a burguesia e o proletariado. Por serem classes fortes elas conseguem ver o futuro. As classes fracas são a pequena burguesia a o campesinato, não conseguem ver o futuro, então da posição delas se tira a ação delas, do conhecimento que se tem das classes se tira uma ação.

Freud diz que o sexo desempenha para nosso discurso consciente o mesmo papel que a economia assume no papel de Marx. Freud é o medico das causas, você tem um trauma, traz o trauma a tona e pronto resolveu. O conhecimento produz o efeito da ação.

Nietzsche radicaliza tudo dizendo que a própria moral é constituída por algum tipo de ressentimento. Diz que existe um excesso da vida sobre a teoria. A teoria não dá conta da vida. Difícil compreender as causas. O entendimento não dá conta da vida.

Esses três autores tem tamanha importância na critica as ilusões do pensamento humano que a partir deles perdemos a referencia. Mas o fato de perdermos a ancoragem nos valores universais, isso não quer dizer que esteja triunfando o irracional ou a destruição. Num certo momento do século XX houve um avanço extraordinário de forças irracionais e destrutivas (nazismo e a guerras), mas acreditamos que superamos isso.

Porém as ideias desses três pensadores são difíceis de sustentar hoje, não é possível mais validar o conhecimento como chave para ação.

A filosofia lida com duas dimensões essenciais: Conhecimento e Ação.

O Conhecimento pode ser ciência, gnoseologia, epistemologia, ontologia, metafisica.

A Ação tem seu espaço na Ética (diz respeito da teoria da ação individual) e a política (teoria da ação coletiva).

A ação surge de algo obscuro. A ação é hoje o grande problema filosófico.

Somos obrigados a escolher sem ter que comprar uma escolha pronta, não temos mais hoje regras definidas, não sabemos mais qual caminho a trilhar, os códigos e leis não definem a conduta ética. Então o que é uma ação ética hoje?

É uma ação que exigem que escolhamos nos responsabilizando. Quando eu ajo eu tenho que pensar qual o resultado da minha ação. Não existe regra determinada, depende do contexto em que estamos. Arcar com as consequências dos atos.

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