a questão do mal e a humanidade

Hannah Arendt – Banalidade do Mal

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Um pensamento sobre “a questão do mal e a humanidade

  1. Professor Arendt é herdeira da concepção política advinda da tradição grega que considera a política como esfera da excelência, dela excluindo a participação de todos aqueles que pertencem ao reino da necessidade. Nesse mesmo sentido, aproxima-se também particularmente da temática conservadora e aristocrática de Tocqueville que acentua o perigo permanente do despotismo dos governos revolucionários, defendendo uma concepção de “democracia” pautada na estabilidade das instituições e dissociada da ideia de abolição das desigualdades sociais. A total recusa à entrada das massas na política por Tocqueville, que vivencia a Revolução Francesa, é corroborada por Arendt nos anos 60, inclusive com a mesma justificativa, a de que a intromissão dos deserdados no espaço público só pode redundar em terror. Com efeito, a seu ver, apenas os libertos do reino da necessidade devem fazer parte da esfera da excelência, a política.
    Arendt defende, então, na conjuntura dos anos 60, a retomada da experiência da “Revolução” Americana como fruto de um consentimento dos iguais, mesmo sabendo que ele exclui os negros e índios na América por não apresentarem “os traços gerais de humanidade”. Tocqueville, embora critique este aspecto da democracia na América, acaba defendendo também a não extensão da igualdade do homem aos povos “semicivilizados”, como é o caso dos árabes, que não podem ser tratados pelos franceses como iguais ou cidadãos. Este poder de definir o que é ou não humanidade, ou seja, de afirmar que os americanos são os melhores porque são livres das necessidades, por se identificarem apenas com o bem público, implica no fato de que uma República bem organizada deve ter instituições repressivas que selecione as elites conforme estes critérios, excluindo explicitamente os pobres, não proprietários, de serem dirigentes e eleitores. Arendt evita sempre chegar a esta conclusão normativa, embora se posicione contrariamente à concepção da Revolução Francesa de que todos os homens, pelo simples fato de terem nascido, tornam-se detentores de certos direitos, condenando enfaticamente a equiparação dos direitos do “homem qua homem” aos direitos dos cidadãos.
    Em seus escritos do final dos anos 60 e do início dos anos 70 a retomada da experiência da polis grega é corroborada em quase toda a sua obra, com o intuito de rechaçar qualquer mudança da ordem social vigente em nome da necessidade natural de “estabilidade” pelos homens que se mantém às custas do trabalho escravo que os libera para o exercício da ação política. Assim, quando defende a elaboração de leis, a criação de organismos políticos seguindo a experiência da “Revolução” Americana, ela também está legitimando uma Constituição que institucionaliza a escravidão. É aí que está enraizada a sua tentativa de qualificar como criminosos os militantes “radicais” do movimento negro nos Estados Unidos nos anos 60. Em nossa interpretação, ela não está defendendo aqueles que sofrem da privação dos direitos políticos e sociais, mas o funcionamento de uma República que repudia o demos.
    Sendo assim, minha pesquisa revela uma conclusão bastante diversa da sua de que “Arendt pensa no espaço de reivindicação e luta por direitos dentro do estado democrático e de direito, para aperfeiçoá-lo, para incluir atores no jogo político”. Ora, mesmo para os pensadores liberais o Estado é em princípio o monopólio da força. Assim busco mostrar como segundo o pensamento humano tanto ocidental como Oriental, a violência é inerente não apenas à natureza humana como à esfera política desde o “início dos tempos”. As interpretações de Hegel e de Marx sobre a questão social, inserindo-a na esfera política, remetem diretamente à construção do conceito universal de homem e de uma filosofia da história que admite a necessidade da transformação social e da utilização da violência para tanto. Há uma contradição social diante da qual não há resolução que não seja a força, a violência. Nesse sentido, discordo cabalmente de você ao dizer que as discussões sobre o socialismo ou o comunismo não pertençam à filosofia ou às ciências políticas, e muito menos que elas redundem em uma sociedade “que todos os homens concordem”. A tradição hegeliano-marxista que legitima a Revolução Francesa, ao contrário de Arendt, que implica na transformação violenta da sociedade, fenômeno fundamental para a conquista da autonomia e da racionalidade do indivíduo.
    Hannah Arendt ao escrever sobre a banalidade do mal, a meu ver, banalizou a própria temática do mal que é uma temática permanente do ser humano.

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