o que é uma pergunta

socratesSuponha, por exemplo, que você tenha achado uma carteira esquecida sobre a mesa e nela viu dinheiro e documentos. Algum tempo depois, uma pessoa lhe procura e diz que a carteira pertence a ela. Antes de entregar, você lhe pergunta seu nome para se certificar de que a carteira, de fato, pertence a ela. Neste caso, a pergunta “Qual é seu nome?” também busca uma informação, mas sua função se expande. Ela é utilizada como uma forma de se questionar a verdade da alegação (que a carteira realmente pertence à pessoa que lhe procurou!). Assim, uma mesma pergunta – qual é o seu nome – pode, a depender do contexto, ser a simples busca de uma informação ou uma forma de por em questão uma alegação ou de verificar um fato. Ela torna-se, assim, um questionamento. Questionar é, pois, uma forma específica de interrogação. Uma forma que frequentemente recorre a uma pergunta, mas que busca mais do que uma informação, pois pretende examinar um enunciado que se proclama verdadeiro ou avaliar um ato que aspira ser correto ou justo. Assim, questionamos uma atitude de um colega ao lhe pedir que a justifique; que apresente as razões pelas quais ele crê ter agido de forma correta, por exemplo. Da mesma forma, questionamos um enunciado de alguém – que diz, por exemplo, que um carro é melhor do que outro – pedindo que ele nos apresente as razões pelas quais ele crê ser correta sua avaliação. Assim, embora o questionamento sempre tome uma forma interrogativa, nem toda forma interrogativa representa, de fato, um questionamento. Questionar significa perguntar pelas razões de uma crença, de uma opinião ou mesmo de um hábito; implica examinar em que se baseia a crença ou em que se fundamenta a atitude. Daí porque o questionamento aparece sempre associado a uma atitude crítica. Ele suspende a certeza em favor da interrogação acerca das causas ou razões que nos levam a crer em algo ou a agir de determinada forma. No campo da filosofia, essa atitude questionadora tem sido historicamente identificada com a figura de Sócrates, sempre a interrogar seus concidadãos acerca do que é o justo, a coragem ou o belo. Sua atitude crítica e questionadora leva seus interlocutores a se perguntarem sobre as razões em que sustentam seus juízos cotidianos, como quando afirmam que determinada pessoa é justa ou corajosa.

Ele os leva a pensar acerca de algo que até então lhes parecia ser seguro e acima de qualquer dúvida. Por isso, mais do que simples perguntas, as interrogações socráticas são “questionamentos”. Elas encarnam uma atitude que marca o próprio surgimento da filosofia e da racionalidade gregas. Séculos antes de Sócrates, Tales questionou as explicações cosmogônicas (que narravam a criação do mundo pelos deuses) e a elas contrapôs uma nova teoria na qual as explicações vinham fundadas em provas e argumentos. Uma explicação que, por sua vez, foi objeto de novos questionamentos. Desde então, esse passou a ser um procedimento que, para muitos teóricos da ciência, constitui sua marca distintiva: a busca por um questionamento sistemático, desafiando cada teoria a apresentar as bases em que repousa. Assim, cada nova geração de cientistas passa a questionar as explicações que herdou dos que a precederam, interrogando suas alegações, desafiando suas razões e testando seus limites. Essa forma de interrogação, que questiona o que se apresenta como certo e que faz da pergunta uma busca voltada para a compreensão, é tão importante no âmbito escolar como no científico. Como nos lembra Neil Postman perguntar e responder são nossas ferramentas intelectuais mais importantes. As respostas que temos em nossas cabeças não significam nada a menos que saibamos as perguntas que as produziram. Uma pergunta é um tipo de oração. Mal formulada, não produz conhecimentos ou compreensão. Bem formulada, leva-nos a novos fatos, novas perspectivas, novas ideias .

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Um pensamento sobre “o que é uma pergunta

  1. Muito bem explicado! Sou bastante platönico em relação à perguta e resposta. Para mim, em muito casos é assim mesmo, quem pergunta já têm a resposta. Também vemos isso nas filosofias modernas como as correntes existencialistas e fenomenológicas, nas quais a pergunta é feita pela consciência sujeita. Perguntar nesse sentido nada seria do que um mecanismo psicológico – ou fenomenológico – que ajusta o consciência a gozar do que já sabe, simplesmente porque o objeto fora dela nunca será conhecido em si mesmo, mas apenas a aparição figurada na consciência,. Abraços

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