“A REVOLUÇÃO DOS BICHOS”

A importância central de “A Revolução dos Bichos” reside na crítica a regimes totalitários (sejam eles comunistas, fascistas ou capitalistas), embora George Orwell tenha se baseado mais especificamente nos acontecimentos que se desenrolaram na antiga União Soviética desde a Revolução de 1917 até 1944. A trama, escrita entre 1943 e 1944, foi construída baseando-se na história do comunismo soviético, sendo vários personagens baseados em figuras reais, como Stalin, Lenin e Trotsky. Mas a crítica pretendia se estender também a outros regimes totalitários em ascensão na época, como o fascismo de Hitler na Alemanha e de Franco na Espanha.

O gênero escolhido por Orwell para sua ácida crítica ao antigo regime soviético foi a fábula, formato já utilizado por Esopo (o escravo contador de histórias na Grécia Antiga) e La Fontaine (escritor francês que viveu no século XVII) para descrever as idiossincrasias inerentes ao comportamento humano através de animais que falam e se comportam como…humanos. As fábulas tem fins educativos e permitem que a gente conheça mais sobre a sociedade em que vivemos e sobre nós mesmos. Além disso, ao contar uma história sobre pessoas mas centrada num contexto animal, Orwell cria a distância necessária para enxergarmos os absurdos de nosso comportamento. A denúncia disfarçada numa fábula se torna tão mais efetiva em regimes sujeitos a censura, pois o autor sempre pode alegar ter escrito uma narrativa meramente fantasiosa.

“A Revolução dos Bichos” conta a história de uma fazenda onde os animais, cansados de serem maltratados e oprimidos pelos homens, um dia se rebelam e colocam os humanos para correr. Começam a administrar a fazenda eles mesmos e criam a ideologia do Animalismo, que segue 7 mandamentos:

7-mandamentos-porco.png

No início a fazenda começa a prosperar, todos os animais se sentem livres e felizes. Aos poucos, os porcos sendo a raça mais inteligente, assumem a liderança e se tornam responsáveis pelas decisões da coletividade. Um deles, Napoleão, encantado com a perspectiva de poder em potencial, trata de eliminar seu possível rival (também porco) e aos poucos adota uma postura de déspota na fazenda. Eles vão acumulando mais e mais benefícios para a classe deles e os diferentes animais (representando as diferentes parcelas da sociedade) vão lidando como podem, a maioria acreditando cegamente em tudo que é dito, outros tentando fugir, outros desconfiando mas se sentindo impotentes para lutar contra. Todos os elementos presentes em regimes totalitários estão lá: uma classe trabalhadora alienada, a manipulação psicológica através da fabricação de um inimigo externo, o culto à personalidade do líder, o forte papel da propaganda com objetivo de alienar através da repetição de slogans, poemas e músicas, a adoção de medidas tirânicas e a criação de privilégios para uma elite dominante às custas do suor de seu povo. E, principalmente, o abandono dos ideais sociais inicialmente defendidos, de tal forma que os 7 mandamentos criados na revolução a certa altura são substituídos por um só:

Todos os animais são iguais mas alguns são mais iguais do que os outros.

O livro extrapola a questão dos desvios que a revolução russa tomou. Poderíamos reconhecer diversos ditadores nas atitudes do personagem Napoleão: Augusto Pinochet no Chile, Hugo Chávez na Venezuela, Slobodan Milosevic na Sérvia e na Iugoslávia, Mao-Tse-Tung na China, Idi Amin em Uganda ou Pol Pot no Camboja.

É preciso que esta fábula moderna continue contribuindo para a humanidade ao nos alertar dos perigos da ascensão de certos líderes com discursos demagógicos, cujos conteúdos disfarçam intenções ulteriores e cujas promessas de prosperidade e liberdade costumam agraciar apenas uma minoria. George Orwell nos ensina, enfim, a reconhecer porcos disfarçados de homens.

fonte!

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