emprego para filósofos …

o mundo precisa de filosofia

Aprendi desde o colégio que nada se poderia imaginar, por mais estranho e incrível, que já não tivesse sido dito por algum dos filósofos…
René Descartes, Discurso do Método, II.

Nem todo mundo pode ser piloto de avião, jogador do Flamengo ou apresentador de talk show na TV. Algumas profissões caracterizam-se pela monotonia; por exemplo, ascensorista. Como manter o bom humor passando um terço do dia (ou metade, quando se acumulam dois empregos diferentes) encerrado num elevador, em constante sobe e desce, sobe e desce? Mas seu Machado era um ascensorista diferente: distraía a si e aos passageiros contando piadas. Meia-idade, cabelos grisalhos, pele curtida pelo sol (era pescador nos fins de semana), sorriso infalível. A história se passa em plena ditadura militar e seu Machado sabia desfiar rosário de piadas do Costa e Silva, o general com fama de boçal que governava o país.

– Terceiro andar, quem vai? Quinto, ninguém? Todos pro primeiro?

A piada teria de ser curta para não ser interrompida no meio.

– O presidente viajou pra Escócia. Numa recepção, ofereceram uísque. “É estrangeiro?” Perguntou. “Não, é nacional”. “Então não quero, uísque nacional não bebo!”

– Primeiro andar, chegamos! Na saída, conto outra.

O prédio, o CPD de um banco, era baixo, seis andares, e seu Machado pilotava o elevador dos andares ímpares.

– O presidente e a esposa vinham de Cuba num jato… (Como de Cuba, perguntará o leitor mais atento, se na ditadura militar o Brasil não mantinha relações diplomáticas com esse país? Ora bolas, responderei, se querem lógica, procurem nos teoremas matemáticos ou nos programas de computador, e não nos sonhos ou piadas.) O comandante anunciou pelo alto- falante: “Neste momento, entramos em território brasileiro, a uma altitude de 10 mil metros…” Sabem o que o presidente exclamou?

– O quê?
– Terceiro andar, quem fica?- Eu, mas primeiro termina a piada!- O Presidente exclamou: “Puxa, eu sabia que o Brasil era grande, mas não sabia que era tão alto!”Todos se escangalhavam de rir e ninguém era preso, imaginou se alguém contasse piada de Hitler em Berlim de 1940 ou de Stalin em Moscou de 1950.Os passageiros do terceiro andar saltaram com a alma leve. Os do quinto foram brindados com complementos.- Na viagem, a esposa do presidente passou mal, vomitou o tempo todo. Ao desembarcar, cercada pelos repórteres, desabafou: “A viagem foi péssima, vim de Cuba vomitando!” Os assessores explicaram: “‘Vomitar’ é termo vulgar, não fica bem para uma primeira-dama; utilize o verbo ‘lançar’, mais elegante.” Pois na entrevista coletiva daquela noite… Quinto andar!- Só saio do elevador quando terminar a piada.- … na entrevista coletiva, a primeira-dama saiu-se com esta: “Vim de Cuba lançando!”- Há! Há! Cu balançando! Boa!

E de tanto “segurar” o elevador para terminar as piadas, acabou sendo despedido. Mas seu Machado não esmoreceu: procurou novo emprego em edifício bem alto, onde pudesse declamar seu novo repertório: o presidente das piadas sofrera um derrame e a junta militar que o sucedera não tinha a menor graça.

– Conhecem a do jogador de golfe?
– Não!- Alguma dama no elevador? Nenhuma? É Clube do Bolinha? Pois bem, o jogador de golfe, cada vez que errava o buraco, gritava: “Puta que pariu, errei!” Aí passou um padre e, ouvindo o palavrão, advertiu: “Meu filho, você está cometendo um grave pecado!” – seu Machado imitava a voz arrastada do padre. – “Saiba que, se Deus o escutar, poderá se enfurecer e atirar um raio na sua cabeça!” Vigésimo andar, quem fica?- Subo até o último e, na volta, fico aqui. Quero ouvir o resto.- Pois é. Dito isso, eis que o céu escurece e, de imensa nuvem negra, desce um raio e atinge em cheio a cabeça do… padre!- Do padre?- Sim, do padre! Do céu, vem voz estrondosa: “PUTA QUE O PARIU, ERREI!”Certo dia, instalaram no prédio elevadores automáticos e seu Machado novamente teve que trocar de emprego. Procurou, procurou, e acabou achando em certa Faculdade de Filosofia. Contudo, o ar doutoral dos alunos e professores, sempre carregados de livros e envolvidos em discussões abstrusas, inibiram seu Machado. As piadas ficaram atravessadas na garganta. Não havia convivência possível entre o “seu Manel” da piada e a fenomenologia de Husserl; entre o Bocage da anedota e o cogito de Descartes; entre as mancadas do ex-presidente e a alienação de Marx. Seu Machado, perplexo, ouvia emudecido:- Você leu o capítulo de Alston sobre a teoria referencial?- Teoria referencial de um ou dois níveis?

– Teoria referencial strictu sensu. Alston aponta duas dificuldades nessa teoria.

– A semântica de Frege supera essas dificuldades…

Seu Machado matutava: “Se existe piada de português, de padre, de judeu, de gago, de general, de ministro, até de Jesus Cristo, há de existir piada de filósofo! Será que na Grécia Antiga não se contavam anedotas?” Calado, seu Machado não entendia bulhufas dos fragmentos de discussão que ouvia entre um andar e outro:
– Acho Kant de um otimismo quase infantil.- Por quê?- Ele acreditava numa lógica acabada e definitiva; acreditava numa única geometria possível; numa física universal… A teoria kantiana acabou atropelada pelas geometrias não-euclidianas, física quântica, lógica trivalente…- Tem razão, mas e a importância de Kant como precursor da moderna epistemologia e filosofia das ciências?Seu Machado cismava: “Quem teria sido Kant, algum cantor? E Schopenhauer, algum bebedor de chope? Descartes, algum jogador de cartas?” De tanto ouvir discussões filosóficas, certa noite teve um sonho. Melhor, pesadelo.
A ciência desumanizara o mundo. O progresso tecnológico era frenético e as descobertas científicas, mirabolantes: cálculos, métodos, autômatos, algoritmos, elementos químicos, linguagens formais, partículas subatômicas… O homem alienara-se de si mesmo, tornara-se apêndice da máquina, neurótico, robotizado… A matéria dominara o espírito.Até que adveio a reação filosófica.
Nos pára-brisas dos automóveis, adesivos com os dizeres: “I LOVE PHILOSOPHY”. Nos muros, pichações: “O MUNDO PRECISA DE FILOSOFIA”. Nunca o afluxo às Faculdades de Filosofia foi tão grande, e o afluxo às escolas técnicas, embora altamente incentivado, tão minguado.
Tal qual o cristianismo – que de religião de escravos, tornara-se popular entre as famílias patrícias, acabando por se alçar a religião oficial do Império Romano -, a filosofia entrou na moda (nas listas de best-sellers, Heidegger, Pascal, Platão) e acabou subindo ao poder!A primeira medida do Partido Filosófico foi proibir o método científico. A educação filosófica tornou-se obrigatória desde o jardim da infância. Nas igrejas, imagens de Jesus crucificado, de Nossa Senhora, deram lugar às de Sócrates bebendo cicuta para salvar a humanidade, sua esposa Santa Xantipa e coisa e tal.Decorridos cinqüenta anos, a Grande Revolução Filosófica fora um sucesso! Inicialmente, o Partido fora dominado por facções empiristas, partidárias de Locke e Hume; após o primeiro grande expurgo, a ala racionalista ganhara hegemonia. Até que agentes camuflados da dissidência comteana secretamente incendiaram o Senado e culparam os cartesianos; as obras de Descartes foram proibidas e queimadas em praça pública…A esposa de seu Machado preocupou-se; o marido debatia-se na cama, suando em bicas, balbuciando frases sem nexo:- A articulação eidético-noemática da estruturação da reificação do ser-aí fundamenta-se na realização do racional, possibilitada pela aplicação de epistemologia formal no nível da razão pura… Enfim, dona Maria acordou seu Machado. Contudo, depois daquele delírio, ele se transformou. No dia seguinte, ao ouvir o professor Roland explicar a seu discípulo:
– Não podemos confundir o conceito grego de “democracia” com o conceito contemporâneo… Seu Machado interrompeu:
– É! E também não podemos confundir “as grandes obras do mestre Picasso” com…?????- …a grande pica de aço do mestre de obras!
texto de Ivo Korytowski
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